Cosmo Juvela
Sombrias e desalentadoras estatísticas insistem em revelar o distanciamento do brasileiro do livro e do hábito da leitura. Já nem se pode apontar apenas o jovem de desprezo pelo salutar hábito, quando se verifica que poucos professores têm afinidade pelo livro.
Por outro lado, talvez em face da enfática demonstração dessa triste realidade, pode-se verificar estimulantes movimentos, em grande número, no sentido de se reverter essa situação.
Com efeito, a reação se faz sentir em todos os níveis governamentais, nas prefeituras, nos estados e no governo federal, despontando com a campanha Fome de Livro, entre outras.
A sociedade também vem se fazendo presente nessa empreitada, através de organizações não governamentais. Notável exemplo tem sido o da Expedição Vaga-Lume, homenageada pela ABDL com o prêmio Difusor do Livro, que simboliza uma luz abrindo caminho a outras iniciativas.
Outrossim, sempre defendemos que não basta oferecer livros e criar bibliotecas, se paralelamente não se promover o hábito da leitura, pois, o problema não é apenas de ordem econômica, afinal, nem todos que têm condições necessariamente lêem.
Por que, então, esse distanciamento do jovem do livro?
Distanciando, sim, porque o jovem e o público em geral já estiveram bem mais próximos do livro!
Lembramos que no passado, antes do advento da televisão, ou ainda quando pouco difundida, existiram, por muitos anos, diversas organizações com características de clube de leitores, como o Clube do Livro, a Coleção Saraiva, um ativo serviço de assinaturas da Editora das Américas, que enviava, mensalmente, livros pelo correio, e, mais recentemente, o Círculo do Livro, que no seu auge chegou a somar cerca de 1 milhão de associados. Por outro lado, no sistema de vendas porta a porta se difundiam em grandes edições e, em todo o Brasil, obras completas de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Eça de Queirós, José de Alencar, Dostoievski, Monteiro Lobato, etc.
Além da Biblioteca das Moças, a Editora Nacional publicou com sucesso a coleção Terramarear, que disponibilizava clássicos da juventude, com obras de Mark Twain, Jack Londom, Rudyard Kipling, Maine Reed, Jerônimo Monteiro, etc.
Era um Brasil de menos de 60 milhões de habitantes!
Só estamos mencionando as obras de ficção porque, de alguma maneira, são elas que mais preenchem as necessidades de fantasia e de “viajar” do leitor, inclusive adulto que, ao contrário do que se pode supor, quando chega a maturidade, não perde a necessidade de “escapar” de seu cotidiano através da leitura, da imaginação e do devaneio.
Assim, a leitura passa a ser um hábito!
Mas, vale registrar que o sistema de porta-a-porta, por outro lado, promoveu também dezenas de obras de história universal, geografia, enciclopédias de diversas dimensões para diferentes faixas etárias (O Tesouro da Juventude foi o mais notável exemplo), biografias, filosofia, arte, e tudo o mais que os tipos móveis do genial Gutenberg possibilitaram, democratizando o conhecimento através da produção do livro em série, como hoje o conhecemos.
Bem, todos esses livros eram consumidos com o dia de 24 horas. Hoje o jovem assiste pelo menos cinco horas de TV (além da prática dos jogos eletrônicos) por um dia que continua tendo 24 horas. De onde foram surrupiadas essas horas, se não, inclusive, da leitura?
E por que a preferência pela opção eletrônica?
Porque enquanto o livro exige concentração, raciocínio, reflexão, dedução e uma certa “cumplicidade com o autor”, estimulando a imaginação, a TV oferece um produto acabado, já com forma definida, sem a participação ativa dos neurônios do “tvguiado”, atendendo, dessa forma, a mais danosa inclinação do ser humano, ou seja, a lei do menor esforço, que, se constantemente atendida e estimulada, instiga a preguiça, a dispersão e a falta de concentração, este elemento indispensável para a leitura.
Dessa forma, para quem não descobriu o mundo maravilhoso dos livros ou foi mal-iniciado, por que se dar ao trabalho de imaginar uma situação que pode ser vista a cores, em movimento e musicalizada?
Afinal, embora a leitura proporcione maravilhosos efeitos, também a longo prazo, como resistir aos disponíveis efeitos especiais eletrônicos?
Assim a “onda” do “tvguiado” é no máximo malhar os músculos, enquanto os neurônios, que deveriam comandar “todo o resto” – portanto o próprio destino – ficam adormecidos, sem capacidade de discernimento, por falta de exercício.
Queremos, com isso tudo, dizer que, sim, o surgimento da TV e dos meios eletrônicos foi o divisor de águas nesse processo de distanciamento.
Os menos culpados nesse contexto são as crianças, pois, todas, de qualquer classe social, têm uma identificação natural com os livros, mormente na meninice. Todas ficam encantadas com um livro na mão!
Os culpados, se é que os estamos procurando, são os adultos, que inconscientemente introduzem essas máquinas infernais na sua sala, nos quartos dos meninos e meninas, no quarto da empregada e, no seu próprio quarto.
Que ingratidão com o livro e a inteligência! E a velha e boa biblioteca, tão constante nas salas, das residências do passado?
É claro que com os novos tempos, participando mais na formação da receita da família (quando, sacrificada, não o faz sozinha) a mulher tem menos tempo para cuidar da educação dos filhos. Ler histórias para eles, nem pensar!
É nessa hora que entra sorrateiramente a insinuante “babá eletrônica”, elemento estranho em qualquer processo em que o objetivo seja a reflexão e a formação.
Dessa forma, o ideal seria, como prega o poeta, “livros a mãos cheias, a pessoas cheias de vontade de lê-los”!
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